Faz tempo que quero responder esta pergunta, queria dar uma resposta profunda (inspirada em um texto do Russell chamado Mysticism and Logic), mas darei uma resposta mais rasa e menos pretensiosa mesmo.
Primeiro: Pós-modernismo é um termo vago, então vou ir listando o que assumo que este "pós-modernismo" quer dizer até chegar onde eu quero. Pós-modernismo na filosofia diz respeito ao conjunto de teses defendidas por alguns filósofos (na maioria franceses) entre as décadas de sessenta e oitenta (período que foi o auge desta "corrente"). Para identificar melhor estes filósofos é ideal qualificá-los como pós-estruturalistas ao invés de pós-modernos, pós-estruturalismo é vago também, mas um pouco menos.
Agora darei nome aos bois: Foucault, Deleuze e Derrida são os grandes nomes deste pós-estruturalismo (Barthes, Lyotard, Baudrillard, Guattari e outros certamente poderiam ser citados, mas falarei apenas daqueles que conheço melhor). De todo este pessoal o único que realmente respeito e que colocaria numa lista dos dez pensadores mais importantes dos últimos cinquenta anos seria Foucault (na verdade eu também gosto de Barthes, tanto que tenho certa resistência em considerá-lo pós-estruturalista). Enfim, por que Foucault? E qual o problema com os outros?
A ideia central do pós-estruturalismo é uma espécie de funcionalismo histérico. Digo "funcionalismo" com o sentido comum do termo na tradição filosófica analítica, onde ser funcionalista sobre estados mentais, por exemplo (como a dor), significa defender que um estado mental é identificado por suas relações de input e output (neste caso a dor seria aquilo que, por exemplo, é causado por danos nos tecidos e que causa gemidos). Estou sendo grosseiro sobre o funcionalismo acerca de estados mentais, mas não será necessário ser mais rigoroso.
O pós-estruturalismo é histérico porque é uma aplicação generalizada deste funcionalismo: sobre a linguagem, sobre o pensamento, sobre a realidade, sobre o conhecimento, sobre a política, sobre a arte, sobre gêneros, sobre muitas coisas. A diferença do pós-estruturalismo para o estruturalismo é que no estruturalismo havia a ideia de que o objeto de estudo (que supostamente manifestaria uma estrutura de alguma maneira) seguiria uma única estrutura, uma estrutura fundamental da realidade (Saussure, Lacan, Kristeva e outros seguem por este caminho, Kristeva aliás é uma piada, ao ponto da desonestidade intelectual) que organizaria tudo. Então, para pegar o exemplo da dor, no caso do estruturalismo seria dizer que a dor tem uma definição funcional determinada por esta estrutura fundamental: dor é dano nos tecidos que causa gemidos, não interessando, é claro, de que são feitos os tecidos ou como são os gemidos. No pós-estruturalismo não há uma estrutura fundamental: haveriam várias coexistindo misturadas. Dor seria tanto dano nos tecidos que causa gemidos como poderia ser perda de dinheiro acompanhada por surto psicótico. Não haveria uma dor que seria A Dor, tudo é relativo à estrutura e não existe uma estrutura fundamental.
Penso que, essencialmente, pós-estruturalismo seja isto. Enfim, por que respeitar Foucault? Porque Foucault aplicou esta tese com algum rigor e obteve resultados interessantes: por que não pensar a separação entre loucura e sanidade como algo determinado pelas discussões envolvendo a concepção filosófica de racionalidade, ao mesmo tempo em que esta separação pode ser também pensada em termos psiquiátricos? Assim ainda se torna possível mostrar como se relacionam as "estruturas" filosóficas com as "estruturas" psiquiátricas e como tais coisas se relacionam com outras estruturas da sociedade, com outros discursos (de outras instituições, como instituições políticas, judiciárias, educacionais e outras). Por mais que não concordemos com Foucault e que ele tenha cometido erros, acho que temos de reconhecer a importância da proposta dele e não podemos desprezá-lo se estamos interessados em saber por que ao longo da história as pessoas têm seguido certas ideias e têm conservado certos preconceitos (o que pode ser indagado é se essas questões interessam ao filósofo, se são filosóficas, e neste caso concordo que elas sejam de interesse mais antropológico ou sociológico do que filosófico).
Já me estendi demais. Defendi Foucault, sobre o resto não me sinto culpado por generalizar: pós-estruturalismo é má filosofia. É filosofia prolixa, sem argumentação ou com argumentação ruim, é filosofia com motivação política que não consegue funcionar nem como política e nem como filosofia.
0 comentários:
Postar um comentário