31 de março de 2011

Se é um fato óbvio que, não importa em que você vote, o candidato eleito será o mesmo, faz sentido uma pessoa específica se preocupar com o próprio voto? (resolvi perguntar isso a todo o circuito intelectual do formspring, hehe)

O erro consiste em pensar que a preocupação (ou reflexão) depositada em um voto deve depender da possibilidade do candidato votado ser eleito. O que deve fazer nos preocuparmos com nosso voto, antes da probabilidade do candidato ser eleito, é a postura e as propostas com as quais selamos um acordo através do voto. Uma analogia que pode deixar isso claro é a substituição de uma eleição por um plebiscito, onde se vota (favoravelmente ou não), digamos, pelo estabelecimento de uma lei. Em termos "quantitativos" a situação não difere muito: é totalmente possível um cenário onde o voto individual não será capaz de mudar o destino do plebiscito, isto é, onde quer que o indivíduo vote "sim" o resultado será "não" (ou vice versa). Na relação disso com o caso da eleição é que fica nítido o quão enganosa é a ideia de que a semelhança quantitativa não justificaria uma semelhança qualitativa, pois dificilmente alguém deixaria de se preocupar se vota "sim" ou "não" para, por exemplo, "O aborto deve ser legalizado?" apenas porque estima que há uma probabilidade muito maior de que certo resultado seja obtido. Eu não deixaria de votar "sim" para este exemplo, por mais provável que fosse a vitória do "não". Democracia (entendendo eleições como dispositivos democráticos) é primeiramente sobre pensar e exercer direitos, não apenas sobre eleger e ocupar cargos.

Orientar o próprio voto com base na aceitação de probabilidades não caracteriza o pleno exercício de um direito tão arduamente conquistado. A "diferença" que um voto deve fazer não é eleger um candidato, mas sim dar voz para uma ideia. É por isso que faz sentido que toda pessoa se preocupe com o próprio voto, se por alguma razão a preocupação deixa de fazer sentido, então o mesmo ocorre com a ideia de voto.

Se é um fato óbvio que uma pessoa pode deixar de se preocupar com seu voto porque ele não fará diferença, então é um fato óbvio que, como o voto de mil pessoas não fará diferença, mil pessoas podem deixar de se preocupar com seus votos? Não é óbvio e tampouco é um fato, é uma ideia equivocada que tenta ver sentido para o pensamento democrático em contexto matemático, o que não é muito diferente de tentar entender Shakespeare lendo uma bula de remédio. Estou supondo que no fundo seja só essa ingenuidade matemática, porque também não deixa de ser verdade que estímulos para se iludir de que "o voto não faz diferença" não faltam e são tão nobres quanto surpreendentes.

Agora, se a questão era para ser somente um enigma matemático (sem qualquer relação com a questão da democracia), minha resposta seria outra.

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1 comentários:

  1. E como avaliar os casos em que optamos por votar contra algo e não a favor de algo, por exemplo:

    -três candidatos A, B, C

    - A e B estão muito a frente, tendem a ir para o segundo turno, porém há chances de A ganhar no primeiro turno

    - o meu voto seria do candidato C, mas C não apresenta chances reais de ir pro segundo turno

    - eu abdico do meu voto em C e voto em B, pois como C não tem chances, prefiro evitar que A ganhe no primeiro truno, pois prefiro B a A

    nesse caso, eu tb estaria deixando de exercer plenamente o exercício do voto?

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