"Realismo" em filosofia é uma posição que geralmente assumimos sobre certas coisas ou fenômenos: significa sustentar que o objeto (sobre o qual se é realista) existe independentemente da existência de alguma mente. Portanto, poderíamos ser realistas sobre números, sobre a verdade, sobre relações causais, sobre valores éticos, sobre átomos ou até sobre cadeiras e mesas.
Na tua pergunta "realismo" ocorre com o sentido que é oriundo do senso comum, onde "real" e "verdadeiro" são mais difíceis de separar e "realista" pode significar "correspondente ao que é real" ou "próximo do que é verdade".
Tratando-se de perguntas filosóficas se torna importante esclarecer tais particularidades semânticas, podemos agora parafrasear tuas perguntas com um vocabulário mais preciso: o niilismo é a tese filosófica mais próxima da verdade? É a única tese filosófica próxima da verdade? Existe tese filosófica próxima da verdade?
Para a primeira pergunta penso que a resposta seja "não". O niilismo pode ser concebido de duas maneiras: como a ideia de que não há sentido absoluto para a existência (não há um grande propósito por trás de tudo) ou a ideia de que não há qualquer sentido para a existência (nem mesmo sentidos pessoais ou subjetivos). Em verdade, cada versão permite uma formulação descritiva ou uma formulação normativa. Na formulação normativa devemos substituir o "não há" das concepções expostas por "não deve haver". A versão descritiva de que não há um sentido absoluto para a existência me parece uma consequência natural do ateísmo, é uma tese que considero verdadeira (e que depende logicamente da veracidade do ateísmo). A versão normativa, no entanto, é mais complicada e exigiria intensa reflexão sobre questões éticas. Se deveria haver um sentido absoluto para a existência é algo sobre o que eu suspendo juízo (ainda que eu tenda a pensar que não seja o caso).
A segunda concepção do niilismo, caso se trate de uma proposta descritiva, me parece claramente falsa. É uma constatação empírica o fato de que muitas pessoas norteiam suas vidas por sentidos pessoais, a alegação de que não existem sentidos pessoais vai contra qualquer evidência de que disponho. O caso da versão normativa desta concepção não é muito melhor, simplesmente não vejo razão alguma para defender que as pessoas não devem dar ou buscar um sentido próprio para suas vidas. Pelo contrário, vejo razões para que se negue tal ideia, observe-se este breve (e ingênuo) argumento:
Se uma pessoa crê em um sentido para sua vida, então tal pessoa é mais feliz (uma inferência indutiva); Se uma pessoa é mais feliz, então tal pessoa é mais eticamente responsável (outra inferência indutiva); logo, se uma pessoa crê em um sentido para sua vida, então tal pessoa é mais eticamente responsável. Devemos defender aquilo que torna as pessoas eticamente responsáveis; portanto, devemos defender que as pessoas acreditem em sentidos para suas vidas.
É um argumento ingênuo porque não sei se as induções se sustentam e porque, caso se adicione uma proposição como "As pessoas devem ter o mesmo sentido para suas vidas", então os resultados podem ser problemáticos. Contudo, ele serve para mostrar que a proposta normativa da segunda concepção de niilismo é prima facie implausível.
Feitas tais considerações, retomo a resposta que dei inicialmente: não, o niilismo não é a tese filosófica mais próxima da verdade. Primeiro porque não é apenas uma tese, mas várias com graus diferentes de proximidade da verdade. Segundo porque, mesmo aquela que seria no meu entender a mais próxima da verdade (que não existe um sentido absoluto), não é algo tão próximo da verdade (ou simplesmente verdadeiro, sem qualquer "distância") quanto outras teses filosóficas que mantenho: o realismo sobre um mundo objetivo e sobre a existência de outras pessoas, por exemplo. Note que estou interpretando "mais próximo da verdade" como "menos sujeito a dúvidas".
Com a resposta da primeira pergunta já foi respondida a segunda: não, o niilismo não é a única tese filosófica próxima da verdade. Os exemplos que ofereci são de teses mais próximas da verdade que o niilismo.
A terceira pergunta também já foi respondida, porém esta pede por algumas qualificações. Que razões há para se pensar que teses filosóficas não podem nos aproximar da verdade? Qualquer que seja, não poderá ser uma razão filosófica, pois neste caso ela seria auto-destrutiva: para mostrar que teses filosóficas não podem nos aproximar da verdade tal razão teria de se aproximar da verdade; logo, não poderia ser filosófica. Eliminando-se as razões filosóficas restam as seguintes (entre muitas outras): razões lógicas, razões científicas, razões religiosas e razões sociais. Razões sociais são candidatas risíveis, não consigo pensar em qualquer uma que não seja falaciosa. A situação das candidatas religiosas não é diferente (sobretudo se alegarem que é só pela fé que se descobre a verdade). A lógica fica em silêncio (afinal de contas é uma questão essencialmente epistêmica).
Fui grosseiro ao comentar estes três tipos de razões não apenas porque penso que elas não podem justificar a proposição em causa, mas também porque me parece que tal fato é evidente (o que não significa que deva sempre ser tratado de forma grosseira, são questões pertinentes ainda que eu não vá me aprofundar nelas agora) enquanto a incapacidade das razões científicas não parece tão evidente (é algo que não pede esforço para se conseguir imaginar alguém defendendo).
Entretanto, razões científicas também não conseguem mostrar que teses filosóficas não podem nos aproximar da verdade. Isto porque "verdade" não é um conceito da atividade científica. Embora os cientistas estejam tentando descobrir verdades na natureza, eles não estudam se "é verdade que a gravidade atrai os corpos" ou se "é verdade que os genes determinam características corporais": o que eles tentam descobrir e explicar é se a gravidade atrai os corpos ou se os genes determinam características corporais. A expressão "verdade" não entra nas hipóteses nem nos enunciados teóricos. Nenhum cientista estuda o conceito de "verdade". Caso um cientista tentasse mostrar, com base em experimentos e dados científicos, que as teses filosóficas sempre resultam em proposições falsas, então ele estará pensando de uma certa maneira sobre o que significa algo ser "falso" ou ser "verdadeiro" (pode estar pensando que "verdadeiro" é aquilo que foi confirmado empiricamente e que falso é aquilo que nega o que foi confirmado).
De onde este cientista imaginário teria obtido este conceito de "verdade"? De alguma teoria científica? Não poderia ser, pois o próprio conceito de verdade deveria ser originário da experimentação: um experimento teria que confirmar que "verdade" é aquilo que é confirmado, isto é, "verdade" é o que é confirmado e o que é confirmado é a "verdade" (um raciocínio circular). Se o cientista não poderia se amparar em razões científicas, então restariam exatamente aquelas que ele está rejeitando: razões filosóficas. Com isto seriamos levados novamente ao caráter auto-destrutivo de se usar da filosofia para negar o conteúdo cognitivo dela mesma.
Argumentei que não há razões para se defender que teses filosóficas não podem se aproximar da verdade, contudo, não demonstrei que teses filosóficas podem se aproximar da verdade (embora tenha dado assentimento tácito para tal ideia). E não farei isso porque já me extendi demais, a resposta das duas primeiras perguntas é "não", a da última é um "sim" autoritário.
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